PEDIATRIA - VACINAÇÃO - PUERICULTURA  

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09/03/2005
Uma vitoria da Ciencia

Dr. Jacob Bergamin Filho

A Câmara dos Deputados finalmente aprovou a Lei de Biosegurança. A importância desse fato é inegável quando se considera que ela lida com pelo menos 2 assuntos polêmicos, com opiniões contraditórias e apaixonantes. Um desses assuntos é a pesquisa com células tronco embrionárias.

Para que se possa esclarecer mais o assunto, as células tronco são divididas em 2 categorias: as embrionárias e as adultas. Essas ultimas são encontradas no sangue de cordão umbelical (que usualmente vai para o lixo junto com a placenta), na medula óssea e mesmo no sangue periférico. Tem suas utilidades, mas são menos versáteis que as embrionárias. Estas são células que formam o embrião, e preferencialmente devem ser usadas até 5 dias depois da fertilização, mas pode esse prazo chegar a 14 dias, no máximo.

Essas células embrionárias são pluripotentes, isto é, podem se multiplicar sempre, indefinidamente, dando células idênticas. Quando as condições permitem, podem se diferenciar em qualquer célula do organismo, pois todos nós somos o que somos a partir da fecundação de um óvulo por um espermatozóide. O óvulo passa a se chamar ovo e vai se dividindo, gerando células que compõem o embrião.

Por serem pluripotentes, carregam em si grandes promessas de regeneração e mesmo formação de tecidos que foram destruídos por doença ou trauma. Seriam a luz no fim do túnel para situações que hoje são incuráveis. E aí é que reside exatamente a finalidade da ciência, como definida por Bertold Brecht em sua peça Galileu: tornar menos miserável a existência humana...

Os que lidam com a vida e, portanto, com o sofrimento humano não podem deixar de apoiar essa decisão do Congresso. Trata-se de liberar pesquisa... Pesquisa leva a descobertas, que por sua vez levam a curas. Há os que falam que vidas serão destruídas no processo. Não, pelo contrario, vidas serão salvas, e às centenas. A polemica é mais religiosa do que qualquer outra coisa, pois quando se fala em destruição de vida, imediatamente é gerada uma discussão bizantina e sem fim se um grupo de 8 ou 16 células pode ser chamado de vida... O que gera outra questão: quando realmente começa a vida? O espermatozóide é vida? Então bilhões de vidas são perdidas numa ejaculação?

É preciso ter muita cautela para interpretar esses pontos, mas a época não admite mais o obscurantismo e o bitolamento religioso que levou à fogueira inúmeras pessoas somente porque eram mais esclarecidas que seus contemporâneos. Giordano Bruno é um exemplo. O próprio Galileu, luminar do seu tempo foi salvo porque sabiamente se acovardou, entendendo que não adiantava brigar e permaneceu preso em sua casa até morrer somente porque disse que a Terra girava em torno do Sol, heresia para a época e verdade conhecida por qualquer criança de hoje.

A Ciência brasileira é bem avançada. Há os órgãos de Ética em Pesquisa que regulamentam tudo isso. A própria lei sancionada ontem permite pesquisa com embriões congelados há mais de 3 anos e com a permissão expressa dos pais. Esses embriões são tecnicamente lixo, pois não se prestam mais para implantação uterina. Que fazer com eles? Lixo ou pesquisa? Também não adianta reverter o que as clinicas de fertilização já conseguiram, isto é, realizar o sonho de milhares de casais que não conseguem ter um filho por maneiras naturais e recorrem à fertilização artificial. São esses procedimentos que geram os embriões que servirão para as pesquisas, e não produtos de aborto ou de “destruição de vida...”

O resultado dessas pesquisas pode demorar um pouco. Mas virá com certeza um tempo em que controlaremos e recuperaremos centenas de pessoas são hoje condenadas à morte... lenta ou rapidamente.

A decisão de ontem foi, antes de tudo, uma vitória da Ciência.
 
                 
 
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